sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Sistema .....Sis-tema.


SIS-TEMA


Diante da insistência de membros de uma equipe de saúde de determinada unidade hospitalar, para que um paciente fosse removido para outra unidade e pudesse receber assistência mais específica, ouviu-se: “Já colocamos o nome dele no sistema, agora temos que aguardar”. Uma semana depois a remoção não havia sido feita. Para a pergunta sobre o porquê da demora, uma resposta bastante simples, e paradoxal: “O sistema ainda não autorizou”.
Em um banco, bastante conhecido por praticar uma hiper-agressiva estratégia de captação de recursos de seus clientes [o que em outras palavras poderia tranquilamente significar usurpação], perguntou-se o porquê de estar sendo debitado mensalmente da conta de um deles, cidadão com comprometimentos psíquicos graves, uma quantia a título de “capitalização”. A resposta, que justificava a prática da rapinagem, foi mais ou menos esta: “Senhor, o sistema não identifica que este cliente tem problemas mentais. Para ele [sistema] trata-se apenas de mais um cliente que recebe um salário mínimo do governo. É um bom cliente, para o banco”. Vale dizer que a décima parte da ajuda de custo mensal recebida pelo cidadão em questão, estava sendo debitada [sem autorização, pois o mesmo só vai ao banco acompanhado e não sabe assinar o próprio nome] a título de investimento, e que sua totalidade só poderia ser sacada ao término de cinco anos. Caso desejasse sacar antes, um dinheiro que estava sendo compulsoriamente retirado de sua conta, o pobre coitado deveria abrir mão de 30% do valor, a título de “taxa de resgate”. O sistema é esse. O sistema age assim.
Eram 20h30min e já estava há cerca de quarenta minutos tentando falar com alguém da operadora de cartões de crédito. Uma música, terrivelmente chata, tocava sem parar, dando a nítida impressão de que tinha certa função persuasiva, como se fizesse parte de uma estratégia de atendimento deste tipo: “Desista, ninguém aqui vai te atender ao telefone!”, uma mensagem subliminar? Eis que o improvável acontece, uma pessoa atende, mas imediatamente avisa: “Caro cliente, o sistema está fora do ar... tente ligar daqui à uma hora, pois é possível que ele volte, neste tempo”.
Da primeira experiência, na unidade hospitalar, o que de mais concreto pôde se auferir, em caráter de informação, foi que o sistema tem poder de decisão. O sistema dá [ou não] “autorizações”, e não se vê a face, ou o rosto, do sistema. Essa curiosa entidade pós-moderna é responsável, isto é, responde, por quem não pode dizer além disso: “Ainda não pode, ele não disse que sim”. Da segunda experiência pode-se pensar que ele [sistema] trata todos como iguais [o que poderia ser uma virtude] e que A é tão importante quanto B, mesmo que C tenha a mesma importância que os dois [juntos ou separados]. A terceira cena não deixa dúvidas: Além de decidir e de praticar uma espécie singular de isonomia capitalista, o sistema tem vida própria e voa, tendo o poder de sair e de voltar para o ar. Em todos os três casos ele [sistema]serve para privilegiar uma discussão, e fazer com que uma outra possa entrar em cena;  justiça.
Quem responde por isso? A linguagem é, ou não é, um phàrmakon?

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